Muitos investidores iniciantes entram no mercado financeiro através do Forex (mercado de câmbio internacional). Só que quase todas as fontes de informações, para não dizer todas, apenas comentam superficialmente sobre a microestrutura do complexo e arriscado mercado de taxa de câmbio.

O mercado de Forex é extenso, global e geralmente um mercado bastante líquido. Bancos Centrais e comerciais, empresas de seguro e outras instituições financeiras, bem como grandes corporações operam neste mercado para gerenciar os riscos associados às flutuações das taxas de câmbio.

Assim como em qualquer mercado de renda variável, o risco de prejuízo para investidores individuais (operadores de varejo) que negociam contratos no Forex pode ser substancial não só devido às  manipulações nas cotações e execuções das ordens por diversas corretoras de varejo, mas também por causa da alavancagem de capital que estes agentes oferecem; os planos de alavancagem vão de 1:2 até 1:1000. São raros os investidores iniciantes e até mesmo um pouco mais experientes que usam de forma saudável os planos de alavancagem.

O risco para o investidor de varejo é ampliado devido a falta de conhecimento das características e funcionamento do mercado de balção (OTC – Over The Counter). Uma das principais características do Forex é a liquidez, que é fornecida por grandes bancos comerciais que são classificados como dealers. No topo da lista dos maiores participantes estão os bancos Citigroup, JP Morgan e UBS.

Fonte: Euromoney FX survey 2016. Elaboração própria.

Fonte: Euromoney FX survey 2016. Elaboração própria.

O alto grau de concentração das operações de câmbio em alguns poucos bancos caracteriza um oligopólio ao nível global e facilita episódios de manipulação de taxas e spreads decorrente da formação de cartéis. Recentemente, uma investigação conduzida pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos desvendou um esquema de manipulação de taxas de câmbio e condenou quatro grandes bancos – JP Morgan, Barclays, Citigroup e Royal Bank of Scotland – que se declararam culpados por conspirar para manipular a taxa Euro/Dólar (EUR/USD) no mercado à vista e, em julho de 2015, concordaram em pagar US$ 2,5 bilhões de dólares em multas criminais.

No Brasil, esquema similar de manipulação da taxa de câmbio de dólar orquestrado pelos dealers está sendo investigado pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE). Em dezembro do ano passado, o Conselho firmou acordo com cinco bancos na investigação do cartal. As multas aplicadas foram de R$ 80 milhões para o Citicorp, R$ 51 milhões para o Deutsche Bank, R$ 21 milhões para o Barclays, R$ 18 milhões para o HSBC e R$ 11 milhões para o JP Morgan.

Além dos esquemas de manipulação em nível macro, os investidores de varejo também estão expostos às ações danosas das corretoras, que usam de diversas táticas para captar investidores oferecendo bônus e promoções duvidosas, para no final lucrar com práticas abusivas como atraso na execução das ordens, “recotações”, derrapagem, abertura do bid-ask spread e até mesmo criando dificuldades para saque do capital disponível na conta do investidor.

Neste artigo, abordamos de forma objetiva e simplificada os principais riscos que envolvem operações no mercado de Forex. O objetivo é trazer informações concretas e detalhadas sobre este grande e desafiador mercado.

Os principais riscos envolvidos

– Custos operacionais podem não ser tão claros. Antes do investidor decidir participar do mercado de Forex, é preciso pesquisar o histórico e informações de diversas corretoras e comparar os custos relacionados às operações e serviços de conta. Há poucas regras que regulamentam como as corretoras devem cobrar os investidores por seus serviços, ou de como um dealer deve cobrar para fornecer a liquidez.

Alguns dealers e corretoras cobram comissões por negociação, enquanto outros podem cobrar dos investidores um markup ampliando o spread (bid-ask spread, diferença entre a cotação de compra e venda).

Quando uma corretora anuncia operações com “comissão gratuita”, o investidor não deve assumir que a transação será executada sem nenhum custo. Pelo contrário, a comissão do agente pode estar inclusa na cotação do bid-ask spread, e isso implica na falta de transparência do markup da corretora.

Além disso, algumas instituições podem cobrar comissão e spread. Faz-se necessário que o investidor, ao abrir uma conta, leia minunciosamente todos os termos do contrato para entender plenamente os custos e métodos de cobrança, proteção da conta em caso de default, oferta de liquidez e todo o processo execução e manutenção das ordens.

– Custos de transação pode transformar operações ganhadoras em perdedores. Dependendo das condições da corretora(custos de spread, comissão, oferta de liquidez), que podem variar dependendo do par de moeda negociado e do momento do mercado, o investidor pode ter suas operações comprometidas devido ao alto custo de execução. Operações de curto prazo, como as de scalping, muitas vezes podem comprometer o resultado do investidor, devido ao custo variável do spread. Uma vez que toda ordem executada no Forex é absorvida por um dealer ou market maker, que cobra um spread.

– Não há uma bolsa central. Diferente das bolsas regulamentadas de futuros e opções, no mercado de Forex não existe uma bolsa que centraliza as operações. Os investidores normalmente tem acesso à liquidez através de grandes instituições financeiras conhecidas como dealers e market makers(fomentadores de mercado). Estes agentes sempre são a contraparte das operações; por exemplo, se o investidor deseja comprar, independente do tipo de ordem que é usado na plataforma (à mercado ou limitada), essas instituições vão assumir os contratos na ponta vendedora. No mercado centralizado os investidores podem negociar os ativos uns com os outros, há também a participação de market makers que são autorizados pela bolsa para fornecer liquidez para os contratos, ao contrário do mercado de Forex, esses agentes devem seguir estritamente as regras bolsas ao fornecer a liquidez.

A tecnologia que envolve o Forex avançou bastante, e hoje há as Redes de Comunicação Eletrônica (ECNs) de liquidez que ligam os dealers e market makers diretamente com os investidores de varejo. Apesar de existir agentes que oferecem execução direta nas ECNs (muitos também utilizam liquidez das dark pools, que são menos transparentes do que a liquidez interbancária, com regulamentação quase nula, portanto, há a possibilidade de spreads mais atrativos), em diversos casos essas instituições podem não oferecer o melhor preço disponível no mercado. Muito pelo fato de que o investidor não tem acesso às todas informações de cotações e quantidades de lotes por preço (livro de ofertas), e assim tornando difícil saber se a execução foi feita na melhor oferta ou não.

Livro de Ofertas (DOM) ECN de Forex. Plataforma Ctrader.

Livro de Ofertas (DOM) ECN de Forex. Plataforma Ctrader.

Com isso, as cotações das moedas e o preço de spread podem apresentar variações de corretora para corretora ou de ECN para ECN. Ainda pior em momentos de alta volatilidade, quando os preços oscilam muito rapidamente, as cotações e custo spread podem variar muito.

É válido lembrar que uma das principais características do Forex é a descentralização, indicando que não há uma bolsa ou um órgão fiscalizador central. Assim, mesmo tendo acesso às cotações e execução em uma ECN, não significa que o investidor estará tendo acesso à liquidez total dos participantes do mercado de Forex.

O investidor que deseja participar deste mercado deve procurar corretoras em países onde há órgãos sérios e atuantes que regulamentam as operações dessas instituições. No Brasil, o Forex não é regulamentado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), desse modo as corretoras nacionais e internacionais não estão autorizadas a fazer captação de investidores e a realizar atividades no mercado nacional. Mas é permitido que todo brasileiro mantenha investimentos no exterior, que podem estar em forma de Forex.

Já nos grandes centros do mercado cambial, Estados Unidos e Inglaterra, as instituições regulamentadoras fazem forte atuação.

– Não há câmara de compensação e liquidação centralizada(clearing houses). Quando se opera futuros e opções em bolsas regulamentadas, como por exemplo, na Bolsa de Chicago (CME) ou na BM&Fbovespa, as instituições que liquidam os instrumentos financeiros negociados agem como contraparte central de todas as negociações. Essas instituições podem atribuir a tarefa de compensação para membros devidamente registrados e autorizados, que são popularmente conhecidos como corretoras, distribuidoras de títulos e valores mobiliários, bancos de investimento, bancos comerciais e bancos múltiplos.

Essas instituições, ao agir como contraparte de todas as transações, podem garantir proteções em caso de default de uma das contrapartes da transação realizada em bolsa. Essas proteções não estão presentes no mercado de Forex pois não existe uma câmara de liquidação central.

No entanto, algumas corretoras oferecem proteção através do órgãos regulamentadores em caso de default  e até mesmo proteção terceirizada através de uma companhia de seguro.

– Fraude. O investidor deve estar atento aos esquemas de “fique rico rapidamente”, que prometem lucros significativos com risco mínimo através de operações no mercado de Forex. E isso é o que mais existe, principalmente no Brasil, onde há uma grande oferta de estratégias manuais e automatizadas que prometem altos ganhos.

Nos Estados Unidos a SEC, Securities and Exchange Commission (Comissão de Valores Mobiliários), NFA, National Futures Association (Associação Nacional de Futuros) e a CFTC, Commodity Futures Trading Commission (Comissão de Comércio de Mercadorias e Futuros), fazem a fiscalização e atuam em casos de alegações de fraudes feita por agentes no mercado de Forex.

É de suma importância, que se o operador decidir participar desse mercado, ele deve escolher uma corretora ou dealer que esteja devidamente registrado em órgãos federais de fiscalização de seus países, e que ofereça proteções de conta em caso de default da corretora.

Mercado Futuro de Câmbio é a solução?

Este artigo tem como finalidade principal, informar sobre algumas armadilhas do mercado de Forex.  Não tem a finalidade de comparar e especificar sistematicamente o mercado de câmbio spot (à vista) e futuro.

Livro de Ofertas Dólar Futuro (BMF). Plataforma Flashtrader.

Livro de Ofertas Dólar Futuro (BMF). Plataforma Flashtrader.

No entanto, em vídeos e artigos futuros, o foco deste site será dedicado ao mercado futuro, pois além da transparência, operar em bolsas centralizadas traz muitas vantagens aos investidores. Por exemplo, no Brasil o mercado de futuros é feito pela Bolsa de Valores de São Paulo, a BM&FBOVESPA. O contrato futuro de Dólar, seguido pelo futuro do Ibovespa, é o ativo mais negociado por investidores de varejo, e todos os operadores têm acesso os dados de transações através das plataformas, e todas as operações são registradas na BM&Fbovespa.

Para os contrato futuro de moedas como Euro, Iene, Dólar Canadense, Dólar Australiano, o investidor estará negociando na Bolsa de Valores de Chicago, a CME. Assim como na BMF, as operações realizadas na CME ficam registradas. Os investidores têm acesso aos dados de profundidade de mercado (ofertas de compra e venda por nível de preço), e aos custos operacionais envolvidos em todos os aspectos da transação, que são mais acessíveis  e transparentes do que o markup sobre o spread, comissões e spread de redes ECNs praticados no mercado spot para o investidor de varejo.

Com isso, o mercado futuro seria a uma boa escolha para o pequeno e médio investidor de varejo que busca transparência, acesso aos dados de profundidade de mercado e transações em tempo real – possibilitando a leitura do fluxo de ordens -, melhores custos operacionais, acesso à uma vasta gama de plataformas e ferramentas, garantia de contraparte e melhor regulamentação e transparência.
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