Muitos traders iniciantes entram no mercado financeiro através do Forex (mercado de câmbio internacional). Só que quase todas as fontes de informações apenas comentam superficialmente sobre quais são as particularidades que fazem este mercado funcionar.

O mercado de câmbio internacional, conhecido fora do Brasil como FX market, é extenso, global e geralmente um mercado bastante líquido em seus principais pares de moedas, derivativos de balcão (opções, forwards e swaps) e de bolsa (futuros, opções, ETFs, ETNs, etc).

Este artigo tratará mais especificamente das operações em CFDs de moedas e do mercado spot de moedas.

Os Bancos Centrais e comerciais, diversos tipos de fundos de investimentos, empresas de seguro e outras instituições financeiras, bem como grandes corporações geralmente operam neste mercado para especular, lucrar com intermediação e gestão e gerenciar os riscos associados às flutuações das taxas de câmbio.

Os traders autônomos conseguem operar FX na cotação à vista, através de corretoras que oferecem um contrato derivativo de moeda alavancado, que é um proxy do ativo à vista, chamado de “Contrato Por Diferença” (CFD). Também é possível operar com certa facilidade alguns derivativos como os contratos futuros e opções sobre moedas (pouco explorado pelo varejo), na Bolsa de Chicago (CME).

Há outras formas que um trader autônomo pode operar e ter exposição no mercado de moedas internacional (não entra aqui o mercado de opções binárias e spread betting, este último é regulado no Reino Unido).

Alguns exemplos: através de fundos multimercados, fundos com alta exposição cambial, ações que historicamente possuem alta correlação com o mercado de câmbio, operando o Dollar Index, operando ETFs e ETNs, Credit Deposits (CDs), etc. Há um grande portfólio de produtos que oferecem exposição ao mercado de moedas, não apenas o meio tradicional.

Assim como em qualquer operação em renda variável, o risco de prejuízo para traders individuais que negociam no Forex através de CFDs pode ser substancial não só devido ao risco operacional, mas também pela alavancagem de capital que muitos traders não sabem utilizar. Em corretoras de CFDs reguladas, as ofertas de alavancagem vão de 1:2 até 1:400 para os CFDs de moedas.

No Brasil, as corretoras que oferecem acesso e alavancagem aos futuros de USD/BRL (Dólar Futuro) negociados na B3, possibilitam um nível de até 1:1500. Infelizmente, são raros os traders iniciantes e até aqueles um pouco mais experientes que usam a alavancagem forma saudável e consciente. Assim, a alavancagem, que é um meio de financiamento muito importante para um trader, está sendo cada vez mais limitada ao trader de varejo.

Nos EUA, por exemplo, os CFDs foram banidos devido ao alto grau de dano financeiro sofrido pelas pessoas físicas que, no final, acreditavam equivocadamente que operar estes contratos que oferecem acesso ao mercado global era ir para uma espécie de Las Vegas digital. Ainda hoje muitos iniciantes pensam assim, e os reguladores estão restringindo ao máximo o acesso à alavancagem:

– ESMA/MiFID II  na Europa: proibição de divulgação de produtos alavancados ao varejo, alavancagem cortada e restrita para pessoa física – vai de 1:2 até 1:30, no máximo.
– ASIC Austrália: Estão alinhando o arcabouço normativo para seguir a ESMA com as restrições de marketing para ofertas de produtos alavancados e imposição de níveis “seguros” de alavancagem em produtos como os CFDs para “retail trader” (pessoa física).

O risco para o trader de varejo se aparenta não ao fato de possuir acesso aos produtos alavancados, mas muito mais à falta de conhecimento das características, funcionamento dos produtos e mercados e, principalmente, gestão de risco apropriada para o nível de alavancagem utilizada (valor nocional de exposição ao mercado).

O mercado de FX um conta com diversos participantes que trabalham opiniões parecidas e outra parcela com posicionamentos antagônicos. Em suma, por natureza é um mercado bastante assimétrico, porém, com ciclos que tendem a se repetir devido aos fatores que influenciam na formação da taxa de câmbio.

Agora indo ndo para uma visão geral sobre este mercado, uma das principais características das moedas é a liquidez. Nas operações de balcão, ela é fornecida principalmente por grandes bancos comerciais que são classificados como dealers e market markers (formadores de mercado). De acordo com os dados de 2016 do BIS (“Banco de Compensações Internacionais”), no topo da lista dos maiores participantes estão os bancos Citigroup, JP Morgan e UBS.

Fonte: Euromoney FX survey 2016. Elaboração própria.

Fonte: Euromoney FX survey 2016. Elaboração própria.

O alto grau de concentração das operações de câmbio em alguns poucos bancos caracteriza um oligopólio de nível global e facilita episódios de manipulação de taxas e spreads decorrente da formação de cartéis. Recentemente, uma investigação conduzida pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos desvendou um esquema de manipulação de taxas de câmbio e condenou quatro grandes bancos – JP Morgan, Barclays, Citigroup e Royal Bank of Scotland – que se declararam culpados por conspirar para manipular a taxa Euro/Dólar (EUR/USD) no mercado à vista e, em julho de 2015, concordaram em pagar US$ 2,5 bilhões de dólares em multas criminais.

No Brasil, esquema similar de manipulação da taxa de câmbio de dólar orquestrado pelos dealers está sendo investigado pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE). Em dezembro do ano passado, o Conselho firmou acordo com cinco bancos na investigação do cartel. As multas aplicadas foram de R$ 80 milhões para o Citicorp, R$ 51 milhões para o Deutsche Bank, R$ 21 milhões para o Barclays, R$ 18 milhões para o HSBC e R$ 11 milhões para o JP Morgan.

Além dos esquemas de manipulação em nível macro, os traders de varejo também estão expostos às ações danosas de corretoras, que usam de diversas táticas para captar traders oferecendo bônus e promoções duvidosas, para no final lucrar com práticas abusivas como atraso na execução das ordens, “recotações”, derrapagem, abertura do bid-ask spread e até mesmo criando dificuldades para saque do capital disponível na conta.

Vale ressaltar que nenhum desses fatores impendem a geração de resultado e a gestão operacional de um trader individual. São fatores exógenos (externos) à formação de preços e que ocorrem em janelas de tempo e momentos de mercado específicos. Também ocorrem com operações complexas que, em muitos desses casos de ilegalidade, envolvem variáveis que não causam grandes influências na formação das taxas de câmbio.

O mercado de FX é monitorado pip a pip por grandes participantes, Bancos Centrais e reguladores. Com regulações como o MiFID I e II (Diretiva de Mercados e Instrumentos Financeiros), os mercado OTC está ficando cada vez mais eficiente e regulado. Inibindo e punindo participantes que tentam manipular o mercado de alguma forma.

Neste artigo, abordamos de forma objetiva e simplificada os principais riscos que envolvem operações no mercado de Forex. O objetivo é trazer informações concretas e detalhadas sobre este grande e desafiador mercado.

Os principais riscos envolvidos

– Custos operacionais podem não ser tão claros: Antes do trader decidir participar do mercado de Forex, é preciso pesquisar o histórico e informações de diversas corretoras e comparar os custos relacionados às operações e serviços de conta. O trader deve estar ciente das regras que regulamentam como as corretoras devem cobrar os traders por seus serviços, ou como uma corretora deve cobrar para fornecer liquidez.

Alguns dealers e corretoras cobram comissões por negociação, enquanto outros podem cobrar um markup ampliando o spread (bid-ask spread, diferença entre a cotação de compra e venda).

Quando uma corretora anuncia operações com “comissão gratuita”, o trader não deve assumir que a transação será executada sem nenhum custo. Pelo contrário, a comissão do agente pode estar inclusa na cotação do bid-ask spread.

Além disso, algumas instituições podem cobrar comissão e spread. Faz-se necessário que o trader, ao abrir uma conta, leia minunciosamente todos os termos do contrato para entender plenamente os custos, precificação dos ativos, política de execução, segregação de fundos,  proteção da conta em caso de default, oferta de liquidez e processo de gestão de conta como plataformas, saques, depósitos e transferências.

– Custos de transação pode transformar operações ganhadoras em perdedores: Dependendo das condições da corretora (custos de spread, comissão, oferta de liquidez), que podem variar dependendo do par de moeda negociado e do momento do mercado, o trader que faz giro operacional, ou seja, operações de scalping e trades curtos, pode enfrentar dificuldades devido custo operacional inerente dos CFDs de moeda. Muitas vezes o trade curto pode ser fortemente prejudicado devido ao spread variável, uma vez que toda ordem executada em uma plataforma de CFD é absorvida por um dealer ou market maker, que cobra um spread.

Em termos prático: toda ordem que um trader envia em uma corretora de CFDs, ela é do tipo “a mercado”. Assim, quando o trader quer comprar, ele sempre vai ter que pagar o melhor preço no lado vendedor (preço ask) e quando quer vender/”shortear”, ele pagará o melhor preço no lado do comprador (preço bid).

Boleto da plataforma ActivTrader. Spread do CFD de Bund Futuro.

Boleto da plataforma ActivTrader. Spread do CFD de Bund Futuro.

– Não há uma bolsa central: Diferente das bolsas de futuros, no mercado de Forex não existe uma bolsa que centraliza as operações. Os traders profissionais e autônomos normalmente têm acesso à liquidez através de grandes instituições financeiras conhecidas como dealers e market makers.

Essa é uma característica natural do mercado de balcão. Estes agentes sempre são a contraparte das operações; por exemplo, se o trader deseja comprar, independente do tipo de ordem que é usado na plataforma (à mercado ou limitada), essas instituições vão assumir os contratos na ponta vendedora. No mercado centralizado os participantes podem negociar os ativos uns com os outros, há também a participação de market makers contratados que são autorizados pela bolsa para fornecer liquidez para os contratos, ao contrário do mercado de Forex, esses agentes devem seguir estritamente as regras bolsas ao fornecer a liquidez.

A tecnologia que envolve o Forex avançou bastante, e hoje há as Redes de Comunicação Eletrônica (ECNs) – EBS, FX Connect, etc), FX Prime Brokerages, que ligam os dealers e market makers diretamente com as corretoras de varejo de varejo.

Livro de Ofertas (DOM) ECN de Forex. Plataforma Ctrader.

Livro de Ofertas (DOM) ECN de Forex. Plataforma Ctrader.

As cotações das moedas e o preço de spread podem apresentar variações de corretora para corretora ou de ECN para ECN. Ainda pior em momentos de alta volatilidade, quando os preços oscilam muito rapidamente, as cotações e custo spread podem variar muito.

É importante salientar que uma das principais características do Forex é a descentralização, indicando que não há uma bolsa ou um regulador central. Assim, mesmo tendo acesso às cotações e execução em uma ECN de FX, não significa que o trader estará tendo acesso as melhores condições de mercado.

Os traders que desejam participar do mercado de FX (spot via CFDs) deve procurar corretoras em países onde há órgãos sérios e atuantes que regulamentam as operações dessas instituições. No Brasil, a operação de corretoras de CFDs não é regulamentada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), desse modo as corretoras nacionais e internacionais não estão autorizadas a fazer captação de investidores e a realizar atividades no mercado nacional. Mas é totalmente permitido que todo brasileiro mantenha investimentos no exterior, que podem estar em CFDs de FX.

Nos grandes centros do mercado cambial, Estados Unidos, Reino Unido/Europa e Austrália, as instituições regulamentadoras fazem forte atuação.

– Não há câmara de compensação e liquidação centralizada(clearing houses): Quando se opera futuros e opções em bolsas regulamentadas, como por exemplo, na Bolsa de Chicago (CME) ou na BM&Fbovespa, as instituições que liquidam os instrumentos financeiros negociados agem como contraparte central de todas as negociações. Essas instituições podem atribuir a tarefa de compensação para membros devidamente registrados e autorizados, que são popularmente conhecidos como corretoras, distribuidoras de títulos e valores mobiliários, bancos de investimento, bancos comerciais e bancos múltiplos.

Essas instituições, ao agir como contraparte de todas as transações, podem garantir proteções em caso de default de uma das contrapartes da transação realizada em bolsa. Essas proteções não estão presentes no mercado de Forex e CFDs, pois não existe uma câmara de liquidação central.

SuperDOM da plataforma Jigsaw Daytradr. Futuro de U.S. Treasury Bonds de 30 anos.

SuperDOM da plataforma Daytradr. Futuro de U.S. Treasury Bonds de 30 anos.

Porém, algumas corretoras de tradição oferecem mecanismos de segurança extras como seguro externo em caso de default, garantia de execução da ordem, chamada de margem e proteção em caso de conta negativa.

– Fraude: O trader deve estar atento aos esquemas de “fique rico rapidamente”, que prometem lucros significativos com risco mínimo através de operações no mercado de Forex. E isso é o que mais existe, principalmente no Brasil, onde há uma grande oferta de estratégias manuais e automatizadas que prometem altos ganhos.

Nos Estados Unidos a SEC, Securities and Exchange Commission (Comissão de Valores Mobiliários), NFA, National Futures Association (Associação Nacional de Futuros) e a CFTC, Commodity Futures Trading Commission (Comissão de Comércio de Mercadorias e Futuros), fazem a fiscalização e atuam em casos de alegações de fraudes feita por agentes no mercado de Forex.

É de suma importância, que se o operador decidir participar desse mercado, ele deve escolher uma corretora ou dealer que esteja devidamente registrado em órgãos federais de fiscalização de seus países, e que ofereça proteções de conta em caso de default da corretora.

Mercado Futuro de Câmbio é a solução?

Este artigo tem como finalidade principal, informar sobre algumas armadilhas do mercado de Forex.  Não tem a finalidade de comparar e especificar sistematicamente o mercado de câmbio spot (à vista) e futuro.

Livro de Ofertas Dólar Futuro (BMF). Plataforma Flashtrader.

Livro de Ofertas Dólar Futuro (BMF). Plataforma Flashtrader.

Mas, operar em bolsas centralizadas pode trazer algumas vantagens aos traders que fazem operações intraday (day trade). Como consciência do livro de ofertas, dados de execução no mercado (histórico de negócios), mais tipos de envio de ordem ao mercado, alavancagem um pouco mais atrativa, muitas plataformas e market data, entre outros fatores que discutiremos no futuro.

Na prática, para os contrato futuro de moedas como Euro, Iene, Dólar Canadense, Dólar Australiano, o trader estará negociando na Bolsa de Valores de Chicago, a CME. Assim como na B3, as operações realizadas na CME ficam registradas. Assim como no operacional dos futuros de moeda na B3, os participantes também têm acesso aos dados de profundidade de mercado (ofertas de compra e venda por nível de preço), e aos custos operacionais envolvidos em todos os aspectos da transação, comissões e spread de mercado.

Com isso, o mercado futuro seria a uma boa escolha para o trader de curtíssimo prazo que buscam mais acesso aos dados de profundidade de mercado e transações em tempo real – possibilitando a leitura do fluxo de ordens -, custos operacionais um pouco mais atrativos, acesso à muitas plataformas e ferramentas, garantia de contraparte e melhor regulamentação e transparência.

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