Você conhece as diferenças entre o mercado de dealers e o de leilões? Neste artigo vamos analisar de forma objetiva e simplificada as principais características de microestrutura desses mercados.

Muitos investidores começam a estudar o mercado financeiro e quase 99% dos cursos e materiais disponíveis para os iniciantes não tratam das abordagens que diferenciam a estrutura de cada mercado e seus ativos.

Cada mercado traz suas particularidades e características. Negociar uma ação é diferente de negociar um contrato de um ativo de base (spot) de moeda, ao contrário do mito difundido de que é apenas abrir o gráfico e negociar usando alguma estratégia.

Mercados de Dealers (Dealer Markets)

Para tratar sobre este tipo mercado, precisamos entender quem são os dealers.

Podemos usar a classificação do Banco Central do Brasil para definir estes players:

Dealer é um agente intermediário financeiro que faz a gestão de títulos ou moedas por iniciativa própria, auferindo uma comissão sobre o montante da transação.

Se você já opera no mercado spot de FX (FOREX), então esta definição não deve ser muito estranha.

Trazendo ela para uma forma mais direta, os dealers são instituições de médio e grande porte autorizadas pelos órgãos fiscalizadores a ofertar contratos no mercado de interesse, como contratos no mercado de divisas (FX market), por exemplo.

Vamos usar o mercado de moedas neste artigo pois ele é muito singular e é onde estão a maioria dos dealers do mercado financeiro.

O mercado spot de FX é um mercado onde a liquidez – as ofertas de compra e venda – é feita exclusivamente por instituições dealers.

De acordo os dados mais recentes do pesquisa Bank for International Settlements (BIS) sobre o fluxo no mercado de FOREX, cerca de 85% do fluxo de ordens – ofertas de compra e venda – é feito pelos grandes bancos: UBS, Citibank, JP Morgan, Bank of America, Deutsch Bank e Barclays Bank. O restante do fluxo é gerado por bancos menores, corretoras de varejo e casas de câmbio.

Antes de irmos adiante, é muito importante registrar que os Bancos Centrais são os controladores do mercado de divisas. Eles podem atuar para controlar a taxa do câmbio quando acharem necessário.

Os dealers oferecem os contratos de compra e venda e lucram com spread, também conhecido como bid-ask spread, que é diferença entre o melhor a melhor oferta de compra e a melhor preço de venda.

Como exemplo: a taxa de câmbio do EUR/USD está sendo cotada na corretora X tendo melhor oferta de compra (BID o preço de 1,0050 e na melhor oferta de venda (ASK) o preço de 1,0060. Essa diferença de 10 pontos ou 1 PIP (Porcentagem em Pontos) é o preço cobrado pela corretora para executar uma ordem.

No mercado de dealers, o operador ao enviar uma ordem sempre estará consumindo a liquidez ofertada pelo dealer ou corretora através de um dealer fornecedor de liquidez. Na prática, isso significa que o operador sempre estará enviando uma ordem à mercado mesmo que na plataforma tenha a possibilidade de enviar ordens pendentes.

Quando você abre uma ordem à mercado ou pendente, ela sempre consumirá a liquidez do dealer. Quando  uma ordem de comprar for aberta, incidirá o spread e fechará o negócio de compra no melhor preço de venda disponível pelo dealer, no nosso exemplo é o 1,0060.

Quando for iniciada uma ordem de venda ou uma ordem short, incidirá também o bid-ask spread do dealer, sendo assim, a ordem será executada no melhor preço do comprador, que é o 1,0050.

A cotação de preço, o spread e a quantidade de lote da execução das ordens podem variar de instituição para instituição, já que cada dealer e/ou corretora colocam seu preço de spread para fornecer a liquidez.

Esta é uma das principais características deste tipo de mercado, pois diferentemente do mercado de leilões, não existe uma bolsa ou uma instituição centralizando e liquidando negociações do mercado como um todo.

Vantagens
Liquidez: normalmente se tem muita liquidez  para operar contratos oferecidos pelos dealers.
Alavancagem: por ser um mercado menos regulado, as instituições e corretoras podem oferecer planos de alavancagem altíssimos que vão de 1:2 até 1:1000.
Custos: os custos para os investidores podem variar dependendo da instituição, mas geralmente são bastante acessíveis e flexíveis para players de diversos tamanhos.
Anonimidade : por ter pouca regulamentação, os dealers podem oferecem e buscar contratos em dark pools, onde conseguem executar as ordens de forma anônima e com custo de execução reduzido, assim podendo melhorar o preço de spread.
Desvantagens
Cotação de preço: apesar de a tecnologia e as ECNs (rede de compra e venda eletrônica que reúne os players) terem ajudado na unificação deste tipo mercado, ainda há diferenças significativas nas cotações oferecidas pelas corretoras e instituições.
Transparência: como é um mercado “fragmentado” (descentralizado), o investidor não tem acesso ao livro de ofertas (book), ao volume real e ao histórico de negócios de todo o mercado.
Execução: a execução da ordem pode sofrer variações devido ao processo de gerenciamento das ordens e do inventário de liquidez do dealer ou corretora. Ou seja, o investidor não tem nenhuma forma de saber como sua ordem entrou e foi executada pela instituição.
Custos com spread: é com spread que as instituições e corretoras lucram ao fornecer liquidez, e este é um dos motivos de os spreads oscilarem e variarem. Dependendo das condições de mercado e da disponibilidade de liquidez da corretora ou instituição, o spread da execução pode ser muito alto e pode acontecer de a ordem ser executada em um preço totalmente diferente daquele exibido na plataforma.
Manipulação: alguns dealers, market makers e corretoras podem manipular por curto período de tempo a cotação dos ativos. Há diversas investigações e prisões relatadas na mídia sobre a manipulação de preço feitas por dealers .

Apesar de ser um mercado com uma regulamentação menos rígida, menos transparente se comparado aos mercados de leilão, o FOREX é o mercado mais popular entre os traders de varejo devido ao baixo custo inicial, às promessas de bônus, a facilidade do uso de automação em plataformas gratuitas e “benefícios” de se operar em um mercado tão grande, diverso e alavancado como este.

Agora vamos analisar algumas particularidades dos mercados de leilão. Para seguir na mesma linha, usaremos como base o mercado futuro de moedas, que é um mercado bastante líquido e é centralizado na Bolsa de Chicago, CME Group.

Mercados de Leilão (Auction Markets)

Vamos definir o que é um mercado de leilão de forma direta: é um mercado centralizado, onde os ativos são negociados em uma bolsa de valores e todos os operadores podem enviar ofertas de compra e venda, sejam elas ordens limitadas (penduradas, pendentes) ou ordens à mercado (agressões).

No mercado de leilão, os operadores diversos – bancos, market makers, hedge funds, prop firms, scalpers, trader individual (varejo) e etc – iniciam o processo de operação escolhendo estratégias baseadas de acordo com seus acervos de informações, e então, simultaneamente, enviam suas ordens para o mercado, e elas ficam disponíveis a todos os operadores através de ferramentas de profundidade de mercado (Depth of Market, DOM, Livro de Ofertas) e histórico de negócios (Time and Sales).

Sede da CME. Bolsa de Chicago.

Sede da CME. Bolsa de Chicago.

Os negócios são fechados sempre nas melhores ofertas de compra e venda, este processo de leilão de “casamento” de negociações é feito hoje em dia por um sistema eletrônico, que gerencia as entradas e saídas das ordens ofertadas e faz as execuções dos negócios de acordo o horário, tipo de ordem e tamanho de lote enviado.

O preço dos ativos negociados nesses mercados são movidos conforme a dinâmica dessas ordens pois os negócios são iniciados em torno da liquidez geradas por diversos operadores com necessidades e interesses distintos.

A Bolsa de Chicago faz todo o processo de negociação e especificação dos contratos futuros de divisas. Lá, os operadores podem operar de forma muito mais transparente e precisa os contratos futuros “cheios”, “mini” ou “micro” das moedas majors como Euro(6E), GBP(6B), JPY(6J), AUD(6A), CAD(6C) e outras.

Vantagens
Centralização: As negociações e as cotações são centralizadas nas bolsas de valores. Todos os operadores podem ter acesso aos mesmos dados de negociações e históricos em tempo real.
Negociação entre players: As negociações nessas bolsas são fechadas entre os participantes por intermédio de corretoras, brokers, clearing houses (câmaras de liquidação). Não há o papel do dealer oferecendo toda a liquidez, assim os operadores desses mercados podem enviar ordens pendentes ao mercado e serem eles os fornecedores temporários de liquidez. Em certas redes ECNs, o investidor ao fornecer liquidez através de ordem pendente, consegue desconto na corretagem. Este tipo de operação não é possível no mercado de FOREX, pois todas as ordens passam por um dealer que cobra um spread para oferecer a liquidez.
Estabilidade: Os ambientes tecnológicos das bolsas centralizadas são de alta qualidade e por isso raramente apresentam falhas. Isso não signigica que são perfeitos, falhas podem acontecer.
Plataformas: Há uma infinidade de plataformas gratuitas e pagas oferecidas para mercados centralizados.
Desvantagens
Custos: Os custos para se operar em mercado de leilões são superiores se comparado ao mercado de dealers, principalmente por causa da pouca regulamentação. Mas ainda assim, dependendo apenas do ativo, ao se operar com 1 lote ou mais, já se torna muito mais vantajoso do que operar contratos CFDs ou FOREX Spot em qualquer outra corretora de varejo.
Market Data (Dados de Cotações): Um dos pontos negativos é a contratação do market data para cada tipo de mercado. Os preços dos provedores variam muito, e se a corretora não tiver parcerias, o custo pode ser alto. Geralmente as corretoras oferecem planos mensais de market data a partir de 8 dólares, ao invés de $30, para todos os ativos listados na CME, por exemplo.
Margem: As margens exigidas pelas corretoras para se operar os contratos nos mercados de leilões são maiores do que as exigidas pelas corretoras de mercado de dealers. Na CME, por exemplo, para se operar um contrato de Euro (6E), as corretoras pedem uma margem mínima de 500 dólares para operações de day trade e entre 1.500 até 3.000 dólares para manutenção de posição.

Pode parecer que operar em mercados de leilão é uma “ciência de foguetes”. Mas não é. Exige do operador um pouco mais de atenção para entender sobre seu funcionamento, mas eles são simplesmente os melhores lugares para se operar devido a regulamentação mais rígida, transparência e até mesmo com custos e possibilidades operacionais para scalpers e day traders.

Mercado de Dealers vs Mercado de Leilão

Este tema é bastante amplo e complexo. Cada um dos mercados analisados traz suas particularidades, finalidades, vantagens e desvantagens, porém, todos eles oferecem oportunidades distintas para os operadores.

No entanto, o denominador comum que dita a movimentação do preço de todos estes mercados é o fluxo de ordens.

O fluxo de ordens (order flow) é a medida da pressão entre compradores e vendedores. De forma simples: ele é o resultado líquido de operações de compra e venda.

Em mercado à vista (spot), como o mercado de câmbio internacional, são os dealers que absorvem todo este fluxo, e eles são recompensados por isto através do spread  e comissões. Os players não têm nenhum acesso aos dados desse fluxo, sendo de monopólio dos dealers.

Em mercado de leilões (como o de derivativos da BM&FBovespa ou da CME), as ordens pendentes (limitadas, penduradas, “na pedra”) são absorvidas pelo fluxo de ordens gerado pelos participantes ativos. Os players têm acesso total aos dados da profundidade de mercado e histórico de negociações em tempo real.

Cada mercado tem sua função e finalidade. Podemos dizer que cada ativo e cada mercado é um universo que deve ser explorado e estudado de forma sistemática pelos participantes que tenham interesse.

A proposta deste artigo além de informar de maneira simples e resumida, é trazer ao debate as ideias sobre o tamanho e diversidade do mercado financeiro global, e também sobre complexo processo da formação de preço dos ativos negociados em mercados com diferentes estruturas.
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