Antes de tudo, fazer day trade com base no sentimento do mercado não é simples. É para traders experientes, com capital suficiente para a ter exposição saudável ao risco e com sólidos conhecimentos dos fundamentos e mecânica dos mercados.

Neste artigo vou expor, de acordo com a minha experiência, a como interpretar o sentimento do mercado com uma abordagem macro-fundamentada, encontrar ativos para operar e aplicar a análise de fluxo de ordens para encontrar timing de entrada e saída nos “melhores” os níveis de preços.

Os Mitos do Mercado

É muito comum que durante a jornada educacional no mercado, os traders iniciantes confiarem integralmente nos ensinamentos de seus professores, principalmente analistas de corretoras. Nada de errado com isso, pelo contrário, faz parte do processo de aprendizagem. Mas é preciso ter senso crítico, ser autônomo no processo de tomada de decisão e não usar o conteúdo como muleta, pois o iniciante só terá evolução significativa se conseguir gerar ideias e operações por conta própria.

Dentro dessa bolha educacional, acaba-se surgindo alguns mitos em torno do que é operar notícias (entenda aqui como “sentimento do mercado”). Vejo e converso muita gente que começou a operar ontem, literalmente, e já conhece todas as nuances do mercado financeiro. Ouço: “a notícia já está no preço”, “os HFTs são os únicos que ganham dinheiro”, “os insiders já operaram”, “isso é só pra quem faz position trading”, “como o gráfico desconta tudo, não tem como operar” e outros equívocos.

Não vou passar por esses comentários, vamos usar este tempo para entender de verdade como gerar ideias e aprender a como operar notícias que realmente podem movimentar o mercado e gerar excelentes operações.

Como Operar Notícias

Muitos iniciantes olham para mercado, geralmente pensando em padrões gráficos e, em última instância, no preço. O preço é uma variável muito importante porque afeta diretamente o P&L (Profit and Loss), margem e precificação de produtos de grandes participantes como bancos, assets, hedge funds, fundos de investimentos e até empresas.

Além do preço, o cenário base macro é outra variável fundamental, ela pode alterar o sentimento dos participantes e fazer com que os institucionais e seus clientes ajustem suas posições, e isso vai afetar diretamente na formação de preço dos ativos no intraday.

Com isso em mente, quando analisamos o cenário macro primário – o news flow, dados econômicos, acontecimentos geopolíticos e atuações dos bancos centrais -, podemos gerar um cenário condicional para a variável “conjuntura”, que chamo de vetor de mercado.

Quando se tem um vetor bem trabalhado, considerando as principais variáveis que podem alterar o sentimento e atuação de grandes participantes em diferentes classes de ativos, torna-se real a atuação em “notícias”, o que chamaremos de evento de risco.

Um evento de risco é, de forma resumida, qualquer acontecimento que pode alterar os níveis de preços dos ativos, a volatilidade e o sentimento dos participantes do mercado.

Diante disso, o trader pode filtrar esses eventos e interpretar o sentimento do mercado parar gerar excelentes operações de acordo um vetor de mercado realista.

Veja bem: não é criar viés operacional para o intraday, mas compreender o que o mercado está precificando (o que estão imprimindo no preço dos ativos) e o sentimento do mercado pela ótica macro.

Criar um processo sistemático para essa abordagem leva tempo, estudo, testes e muito “gut feeling” operacional (experiência + aceitação de risco).

Não podemos esquecer de um fundamento muito importante do trader: o mercado – seus participantes – vai fazer o que tiver que fazer, independente das nossas opiniões. Vieses e opiniões no intraday podem não se sustentar, pois, no final das contas, são as opiniões e decisões de gestores de grandes fundos e instituições que movimentam os preços, e não o nosso viés como trader individuais.

Mais importante, ao entender essa característica e aceitar a natureza do mercado, se faz ainda mais necessário o entendimento do cenário base com que os participantes estão trabalhando. Devemos atuar como profissionais de mercado para tomar melhores decisões neste mercado de profissionais.

Portanto, o que estou trazendo aqui é um processo inicial para ler e explorar os ativos, não é nenhuma busca da “bola de cristal” ou métodos de previsão do futuro, mas sim, uma abordagem realista como ler o macro para escolher os melhores momentos para atuar no day trade.

Reforço mais uma vez: antes de operar neste nível, o trader precisará conhecer muito bem os mercados e as classes de ativos, para que ele possa operar consciente, aceitando a imprevisibilidade do mercado e os riscos do processo, bem como buscando sempre gerar ideias originais, pautadas em fundamentos sólidos de mercado.

Gerando um Cenário Condicional Macro (Resumido)

Resumindo a conjuntura atual do mercado (essa é a minha visão), vemos um mercado em estado misto, ou seja, sinais divergentes quanto ao futuro das maiores economias do G20. Vamos entender um pouco sobre o que está acontecendo e como ler este cenário.

Nos últimos anos, a economia americana cresceu rápido, isso fez com o que Federal Reserve atuasse para manter o crescimento em níveis sustentáveis atuando no nível do controle inflacionário usando instrumentos de política monetária hawkish, ou seja, basicamente aumentando a taxa de juros.

No gráfico abaixo podemos ver a evolução da taxa de 1 dia (overnight) negociada no “Open Market” americano (taxa que os dealers primários utilizam com referência) desde a crise do Subprime (2008) até os dias atuais (18 de julho de 2019).

Taxa USD Libor (Overnight). Histórica.

Taxa USD Libor (Overnight). Histórica.

Além disso, o presidente Donald Trump com sua política “USA First”, criou incertezas globais ao começar uma Guerra Comercial com a China. Isso entrou como uma variável importante no balanço de riscos do Comitê de Política Monetária do FED (FOMC) e de todos os bancos centrais do G20.

Além de gerar efeitos colaterais difíceis de serem adiantados em todas as principais economias do mundo, as mudanças na política monetária dos EUA é tomada pelos tomadores de decisão dos países e também dos maiores participantes como referência do que a economia global pode enfrentar no curto, médio e longo prazo.

Portanto, podemos as categorizar tudo o que é gerado de news flow pelo FED como eventos de risco que podem acabar criando um efeito em cascata em todas as classes de ativos devido a capacidade de afetar todo o sistema financeiro global.

Trazendo para a data presente, isso está claro pois vivemos em um momento em que as outras economias desenvolvidas – os emergentes também – passam por grandes dificuldades na geração de crescimento.

BANCO CENTRAL STATUS ATUAL DA POLÍTICA MONETÁRIA
FED DOVISH
ECB DOVISH
BOE DOVISH
BOJ DOVISH
AUSTRÁLIA DOVISH
NOVA ZELÂNDIA DOVISH
CHINA DOVISH
RÚSSIA DOVISH
ÍNDIA DOVISH
BRASIL DOVISH

Com o Brexit também na mesa e uma economia em decadência mesmo após diversas rodadas de incentivos monetários, a Europa está com taxas de juros negativas, envolta de incertezas políticas e fiscais.

Neste gráfico temos a evolução da taxa de 1 dia (overnight) negociada no “Open Market” europeu (taxa que os dealers primários utilizam com referência) desde a crise do Subprime (2008) até os dias atuais (18 de julho de 2019).

Eurodollar - Taxa Over. Histórica.

Eurodollar – Taxa Over. Histórica.

No lado dos emergentes, o nosso Brasil é destaque em termos de sentimento positivo para o futuro. Bolsa navegando nas máximas históricas, com o câmbio em níveis saudáveis (de acordo com o Banco Central) dado o cenário macro, BC dovish, taxa de juros em queda e governo com agenda macro positiva. Mas, importante: isso não quer dizer que a economia real está indo bem!

Então extraímos aqui um aprendizado: o mercado financeiro é inter-relacionado e os participantes operam as expectativas futuras, precificando os níveis preços dos ativos. Trazendo o valor dos ativos ao preço justo de acordo com a realidade presente, somado às incertezas futuras.

Uma fórmula simples para entender essa ideia é:

Valor Presente Justo = (preço do ativo agora + (desconto ou prêmio da expectativa futura))

Como acompanhar as notícias mais relevantes para fazer day trade

Analisar o contexto para ajudar na tomada de decisão no intraday exige dedicação, experiência e informação de qualidade. As melhores soluções para acompanhar as notícias são os terminais profissionais: Bloomberg, Reuters e Broadcast da Agência Estado.

As notícias em tempo real que esses terminais trazem, imprimem o sentimento global sobre os ativos negociados em todas as sessões. Muitas vezes as publicações são catalisadores, ou seja, fatos relevantes que podem alterar a percepção do mercado. O fluxo de informação é enorme e custo desses terminais são altos: começando em R$ 1.500,00 chegando até R$ 20.000,00 por mês (dependendo do setup).

Visando ajudar a fortalecer a comunidade e ajudar o trader no intraday, eu fiz uma parceria com a ActivTrades para oferecer um canal de notícias exclusivo e em tempo real no Telegram em que eu capturo de sentimento do mercado- aliado com a minha experiência e operacional-, e compartilho com a comunidade. Tudo isso gratuito e em português.

Capturando o Vetor de Mercado e Aplicando no Intraday

Dado esse vetor de mercado, temos que acompanhar o dinamismo do mercado e dos participantes para operar no intraday. Sabemos, então, que o mercado de forma geral opera expectativas, portanto, a tese de que tudo está no preço (ou no gráfico, que é uma força visual de ver os níveis de preço) é real.

Os mercados são arbitrados e precificados a todos os momentos, tanto em nível macro quanto micro. Logo, quando algum evento que altera um cenário condicional, os participantes fazem os ajustes para a nova realidade, principalmente no intraday.

É com isso em mente que vamos gerar operações e ideias de alto valor.

Nos últimos meses o mercado vem passando por mudanças importantes. Os bancos centrais estão mostrando um posicionamento cada vez mais dovish (afrouxamento monetário), preocupados com o crescimento interno e global. O FED que até dezembro estava hawkish, virou o posicionamento para dovish. O ECB (Banco Central Europeu) também alinhou sua posição ao BC americano. Alguns bancos centrais já começaram os cortes de juros, e o BCB (Banco Central do Brasil) também deve acompanhar nos próximos meses.

Taxa de Juros nas mais importantes economias do mundo

Taxa de Juros nas mais importantes economias do mundo

Com isso, é possível perceber nas oscilações diárias e fluxo de ordens que os participantes estão cada vez mais sensíveis para uma possível virada na economia global. O mercado está reagindo a cada notícia, dado econômico, fala de um membro do FED, que possa adiantar as próximas ações dos BCs.

Trazendo para a semana passada (15 até 19 de julho), com todos os acontecimentos e dados, o mercado havia ajustado aos preços dos ativos que o FED faria um corte de 25 bps (basis points) na taxa de juros na próxima reunião, 31 de julho.

Tínhamos na agenda a fala de membros do FED. A que movimentou o mercado foi a fala do Presidente do FED de Nova Iorque, John Williams, e alterou toda a precificação dos ativos.

O mercado precificava um FED não tão dovish até então. O trecho da fala de Williams que surpreendeu e mudou a interpretação foi essa:

É melhor adotar medidas preventivas do que esperar que um desastre se desenrole. Quando se tem tanto estímulo à disposição, compensa agir rapidamente para reduzir os juros no primeiro sinal de estresse econômico.

O mercado sentiu que o FED poderia adotar uma posição mais dovish do que estava nos preços. Então, o mercado colocou uma precificação de um corte de 50 bps na próxima reunião. Esse comentário afetou todas as classes de ativos, principalmente moedas, ações, bonds e commodities (Ouro em especial), pois a alteração na variável de juros, além de afetar os ativos e passivos das empresas e grandes instituições do mercado financeiro, ela pode mudar vetor de mercado no médio e longo prazo.

Após os comentários do FED de NY, além da precificação nos mercados globais, o mercado brasileiro também passou por ajustes: os participantes derrubaram a cotação do dólar e foram para o risco, comprando bolsa. As grandes instituições começavam a emitir opiniões sobre a realidade de um corte de 50 bps na Fed Funds no dia 31 de julho.

O mercado é dinâmico. Horas depois o FED de Nova Iorque explicou que a fala de Williams era voltada aos acadêmicos e não indicava o sentimento do FOMC. Então, o mercado voltou a corrigir para os níveis de preço anteriores. Ou seja, corte de 25 bps no preço para 50 bps, horas depois de 50 bps de volta para 25 bps.

Este evento de risco de alto impacto é um exemplo de que um trader que está preparado e alinhado com o que o mercado está precificando e esperando, pode gerar poderosas operações no intraday. São nesses momentos que o mercado muda de comportamento, e assimetrias aparecem, bem como fluxo de ordens direcional e forte que podem gerar excelentes operações de day trade.

Este é apenas um exemplo de operações que podem ser geradas através da análise do sentimento do mercado no intraday.

Um ponto importante que não vou abordar neste artigo é a gestão operacional para usar este approach, pois envolve uma boa gestão operacional, reserva de capital (para margem) e minimização dos riscos, já que tecnicamente falando, estamos buscando capturar a volatilidade e o sentimento direcional do mercado no curtíssimo prazo, aceitando o fato de que não temos como antecipar com alta precisão quando, em qual extensão e para onde os participantes vão levar o preço.

Vetor de Mercado - 18 e 19 de julho. Resumo.

Vetor de Mercado – 18 e 19 de julho. Resumo.

Faço abaixo um resumo com as ideias do que aconteceu em alguns dos ativos que acompanho e opero no momento: Euro (moeda), Iene (moeda) Ouro (commodity – Reserva de Valor), Bund Alemão (Juros), T-Note Americana (juros) e Mini S&P 500 (equities).

Nos prints vocês verão que eu utilizo o Volume Profile para mapear as áreas de valor (value area), a volatilidade intraday ponderada pelo volume e outros recursos do Order Flow Analytics para analisar as rotações do fluxo de ordem nos ativos.

Em todos eles eu coloquei uma caixa amarela mostrando a janela dos acontecimentos: precificação de 50 bps e depois, ajuste aos níveis de 25 bps.

Coloquei o Volume Profile – entender como zona de aceitação de preço – para identificar as áreas de valor que o mercado negociava no dia 18, e então o retorno à ela no dia 19 quando o FED de NY trouxe a notícia que mudou o cenário dos participantes.

Treasury Note de 10 anos do Tesouro Americano

Bund Alemão (10 anos)

Iene

Euro

Ouro

Ouro Futuro. 18 e 19 de julho de 2019.

Ouro Futuro. 18 e 19 de julho de 2019.

 

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