Em minhas conversas informais com traders como eu, autônomos, eu encontrei uma tendência com pouco desvio padrão (baixa volatilidade): a maioria, infelizmente, ainda está em busca da técnica operacional perfeita e/ou do sujeito que tenha uma.

Alguns com formação em exatas e atuantes na área de tecnologia vão além: querem encontrar uma solução para resolver o mercado buscando aplicar técnicas avançadas com algoritmos, modelagem matemática e hardwares específicos e customizados.

Acontece que quando participamos do mercado e não aceitamos sua natural imprevisibilidade junto com seu o risco inerente, tendemos a nos esgotar na busca irracional de um trading system perfeito que traz um alpha ou índice sharpe alto, sistematizado com elegância e rigor científico; é só “colocar pra rodar” e tirar dinheiro constantemente do mercado mais concorrido do mundo.

Equações matemáticas

Equações matemáticas

Porém, com o tempo, depois de muito capital perdido e muitas horas gastas na busca impossível da equação “divina” dos mercados, aqueles que começam a entender a dinâmica e os ciclos dos mercados, acabam se tornando colegas do risco e da incerteza.

Então é com isso em mente que quero compartilhar uma historinha que faz referência as consequências da tomada de decisão baseada em algum “hype” de indicadores.

O texto é da Folha de São Paulo, escrito por Vinicius Torres Freire, em agosto de 2003.

O cacique, os juros e a meteorologia

Consta que, em um dia de outono, um cacique foi procurado pelos homens da tribo. Queriam saber se o inverno seria rigoroso. Atônito, hesitante, o cacique balbuciou que faria muito frio. Sem hesitar, a tribo passou a recolher pilhas de lenha.

O cacique, que não tinha estimativa confiável do tempo desde que seu pajé fora morto por grileiros de terra, apelou ao serviço de meteorologia para checar sua previsão. Afinal, ele era admirador da tecnociência branca desde que assistira a um vídeo da Funai sobre a teoria dos fractais, a estatística e a econometria, sabedorias que permitiam prever desde safras de abóbora e temporais até erupções de vulcões e inflação.

Do orelhão da tribo ligou para a Web Clima, que confirmou sua previsão: as primeiras evidências mostravam que, sim, faria frio.
Passado um mês, vendo sua tribo dizimar a floresta em torno com mais rapidez que madeireiras malaias ilegais, voltou a ligar para a Web Clima. Ouviu a mesma previsão.

À beira do inverno, já não era possível andar entre as malocas. A tribo acumulara toda a lenha disponível nas redondezas e ainda comprara pilhas de papel de carroceiros paulistanos, que recolhiam relatórios de inflação do lixo dos bancos da avenida Paulista. Angustiado, o cacique voltou à Web Clima, que foi taxativa sobre as evidências agora incontestáveis de que o frio seria terrível.

O cacique arriscou-se enfim a contestar a sapiência meteorológica. “Mas como vocês têm tanta certeza de que fará frio?”, perguntou.
“Porque faz meses que vemos os índios armazenar muita lenha para o inverno”, foi a resposta.

Essa historinha foi furtada e adaptada de uma divertida e instrutiva introdução à meteorologia escrita pelo grande astrônomo Ronaldo Rogério de Freitas Mourão (“Vai Chover no Final de Semana?”, Editora Unisinos). A fábula lembra a previsão de alta inflação dos bancos, que faz o BC deixar os juros na Lua e dizer que a inflação não foi controlada, o que leva os bancos a prever inflação ainda alta etc. Mas resta uma dúvida: quem prevê inflação com base na lenha no lombo dos índios, o BC ou o mercado? Os dois?

Conclusão

Acabamos ignorando a seguinte condição fundamental: que se houvesse uma solução para o mercado, ou seja, incerteza nula, não existiria volatilidade (oscilações), risco implícito nos ativos e muito menos alguém que aceitasse a outra parte das transações (liquidez).

A imprevisibilidade faz parte da natureza dos sistemas econômicos e cria oportunidades no mercado.

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